A adoção de práticas pet-friendly tem sido reconhecida como uma estratégia para deixar os colaboradores mais motivados e produtivos, apresentando também benefícios para a saúde.
Recentemente, as organizações e em particular os RH deparam-se com um desafio que parece não ter fim: reter os colaboradores mais jovens ou os colaboradores da geração Z. Mas, pensando um pouco mais atrás, tudo começou com os Millenial.
Os Millenial começaram a revolucionar o mundo do trabalho e a sociedade em geral pois representam o rosto da mudança no que diz respeito aos animais de companhia (ou pets). No geral, os Millenial mudaram a representação tradicional de família ao considerarem os seus animais de companhia como seus membros integrantes (Dale, 2022). Esta mudança pode dever-se ao facto de que os animais (principalmente cães e gatos) ajudam a reduzir o stress, a ansiedade e a depressão pois causam uma maior produção de dopamina e serotonina – neurotransmissores que desencadeiam prazer e possuem propriedades calmantes (Friedman & Krause-Parello, 2018).
Com a mudança na forma como os animais de companhia são vistos, outras surgiram como, por exemplo, a inclusão dos mesmos em espaços sociais, o surgimento de artigos (de roupas a brinquedos), serviços (de creches, escolas a cabeleireiros) e espaços dedicados aos animais (e.g., parques ou restaurantes pet-friendly) (Stoica & Hickman, 2024). Ou seja, o conceito pet-friendly parece ser uma tendência em crescimento e expansão e, até as organizações o estão a adotar.
O que são organizações pet-friendly?
Organizações pet-friendly são organizações que têm incluídas, na sua estratégia, práticas pet-friendly ou cuja cultura é assumida como pet-friendly (Junça-Silva, 2023). Estas práticas podem variar desde simples ou de baixo comprometimento (por exemplo, oferecer o seguro para animais de companhia ou o dia do luto) até práticas mais complexas ou de alto comprometimento (por exemplo, permitir que os trabalhadores tragam os seus animais de companhia para o trabalho).
Algumas organizações, como a Confirm BioSciences, Nestlé ou Fidelidade, oferecem aos trabalhadores flexibilidade para cuidar das necessidades dos seus animais de companhia durante o dia de trabalho, concedendo, por exemplo, regimes de trabalho flexíveis (teletrabalho) para que possam trabalhar próximos dos mesmos. Esta prática é útil para trabalhadores que possam precisar de um horário de trabalho flexível de forma a darem assistência a animais seniores ou com problemas de saúde.
Uma opção mais complexa inclui levar o animal de companhia para o trabalho (pontual ou regularmente). Esta prática é complexa devido à necessidade de uma estrutura física que o permita e de considerar, primeiramente, todos os trabalhadores que possam ter fobias ou alergias ou até mesmo aqueles que não concordam ou não gostam de animais (Wagner & Pina-Cunha, 2021). Esta tendência parece estar em ascensão, com um número pequeno, mas crescente, de organizações que permitem animais de companhia no local de trabalho (e.g., Amazon, Autodesk, Ben & Jerry’s e Nestlé Purina).
Vantagens das práticas organizacionais pet-friendly
A adoção de práticas pet-friendly tem sido reconhecida como uma estratégia de retenção de trabalhadores que se tornam mais satisfeitos e motivados (Pina-Cunha et al., 2019), mais produtivos e felizes (Junça-Silva, 2024). Parecem ainda diminuir a pressão arterial e os níveis de stress dos trabalhadores, ajudando a restaurar a sua saúde física e mental (Wells, 2019).
Alguns benefícios de levar o animal de companhia para o trabalho ou trabalhar a partir de casa estão relacionados com o aumento do equilíbrio entre a vida profissional e pessoal (Junça-Silva, 2023), pois trabalhar próximo aos animais de companhia significa que os trabalhadores não precisam de se preocupar em deixá-los sozinhos em casa durante todo o dia, especialmente se for um animal sénior, com necessidades especiais ou uma doença que requer medicação regular (por exemplo, diabetes ou uma doença cardíaca) (Foreman et al., 2019). Para os animais, também significa o fim de longas horas sozinhos, o que, por sua vez, diminui as preocupações dos seus donos durante o dia (no trabalho) e os ajuda a estar mais focados e comprometidos com seu trabalho (Bolstad et al., 2021).
Esses benefícios também são relevantes para a organização. Por exemplo, é provável que os trabalhadores que levam os seus animais para o trabalho ou que trabalham a partir de casa possam trabalhar até mais tarde para terminar tarefas porque não têm a preocupação de ir para casa cuidar dos seus animais (Hoffman, 2021). A implementação de práticas pet-friendly melhora o employer branding, realça a integração da organização dentro da comunidade, atrai novos talentos e stakeholders leais (Sousa et al., 2022) e, ao mesmo tempo, proporciona aos trabalhadores ambientes de trabalho mais saudáveis (Wagner & Pina-Cunha, 2021). Outros benefícios incluem taxas de absenteísmo mais baixas, maior criatividade e melhores relações entre trabalhadores pois fomenta a socialização (Kelemen et al., 2020).
Desvantagens das práticas organizacionais pet-friendly
Nem todas as práticas pet-friendly visam levar o animal de companhia para o local de trabalho (embora essa seja uma ideia comum quando se aborda o tema). Embora existam benefícios, também há algumas limitações e desvantagens relacionadas às práticas pet-friendly. Primeiramente, o orçamento financeiro de cada organização tem que ser considerado, pois estas práticas requerem um investimento inicial que terá impacto na gestão financeira. Embora haja um possível retorno a longo prazo (em termos de produtividade e redução do absenteísmo e da rotatividade), é necessário que a organização esteja financeiramente estável para implementar todas as medidas de forma estratégica e progressiva.
Além disso, é essencial considerar a perspetiva de todos os trabalhadores ao pensar implementar estas medidas, pois estas podem ter um efeito desigual em pessoas que não têm animais de companhia, que não gostem, tenham medo ou alergias, e este é um fator que deve ser considerado nas etapas iniciais do processo. Por exemplo, é necessário efetuar um diagnóstico inicial aos trabalhadores para analisar a perspetiva de todos. As organizações devem verificar frequentemente as atitudes dos trabalhadores em relação às políticas existentes sobre animais de companhia para garantir um tratamento justo para todos.
Por fim, na implementação do “pet-day” ou nos dias em que os trabalhadores podem levar os animais há que fazer a gestão do espaço (há espaço para todos?), do tempo (há prazos, reuniões, ou cargas de trabalho que impossibilitem ou prejudiquem o trabalho?), e das pessoas (por exemplo, nesses dias trabalhadores que tenham medo podem ficar a trabalhar remotamente). Há ainda que considerar que um animal necessita de atenção e poderá tentar chamar a atenção, por exemplo, ladrando ou indo ter com outros trabalhadores. Estes comportamentos poderão servir como elementos distratores do trabalho e até causar stress aos trabalhadores (Sousa et al., 2022).
Em suma, as práticas pet-friendly têm mais vantagens comparativamente aos custos que comportam. No fundo, para melhorar o desempenho dos trabalhadores e, consequentemente, a produtividade organizacional, as organizações devem promover ambientes de trabalho saudáveis, e as práticas pet-friendly são um exemplo de medidas que podem ser implementadas nessa direção. Estes tipos de práticas parecem apresentar mais vantagens do que desvantagens, e as organizações podem investir em práticas que envolvam horários de trabalho flexíveis (teletrabalho), subsídios ou ajudas de custo (veterinário, hotel e seguro pet), ou a iniciativa ‘pet-day at work’, contribuindo assim para um aumento no bem-estar, no work engagement e motivando os seus recursos humanos.
Referências
Bolstad, C. J., Edwards, G. E., Gardner, A., & Nadorff, M. R. (2021). Pets and a pandemic: An exploratory mixed method analysis of how the COVID-19 pandemic affected dogs, cats, and owners. Human-Animal Interaction Bulletin.
Dale, S. (2022). Younger generations are obsessed with their pets. dvm360, 53 (8), 80. https://www.dvm360.com/view/younger-generations-are-obsessed-with-their-pets
Foreman, A. M., Allison, P., Poland, M., Jean Meade, B., & Wirth, O. (2019). Employee attitudes about the impact of visitation dogs on a college campus. Anthrozoös, 32(1), 35-50.
Friedman, E., & Krause-Parello, C. A. (2018). Companion animals and human health: benefits, challenges, and the road ahead for human-animal interaction. Revue scientifique et technique (International Office of Epizootics), 37(1), 71-82.
Hoffman, C. L. (2021). The experience of teleworking with dogs and cats in the United States during COVID-19. Animals, 11(2), 268.
Junça Silva, A. (2023). Where is the missing piece of the work-family conflict? The work-[pet] family conflict. Human Resource Development International, 1-9.
Junça-Silva, A. (2024). Applying the Affective Events Theory to Explore the Effect of Daily Micro-Interruptions on Mental Health: The Mediating Role of Affect and the Moderating Role of Pets at Work. The Spanish Journal of Psychology, 27, e1.
Kelemen, T. K., Matthews, S. H., Wan, M., & Zhang, Y. (2020). The secret life of pets: The intersection of animals and organizational life. Journal of Organizational Behavior, 41(7), 694-697.
Pina-Cunha, M., Rego, A., & Munro, I. (2019). Dogs in organizations. Human relations, 72(4), 778-800.
Sousa, C., Esperança, J., & Gonçalves, G. (2022). Pets at work: Effects on social responsibility perception and organizational commitment. Psychology of Leaders and Leadership, 25(2), 144–163.
Stoica, M., & Hickman, T. M. (2024). Gen Z buying patterns: comparing the influence of professional advising and social media engagement. Young Consumers.
Wagner, E., & Pina e Cunha, M. (2021). Dogs at the workplace: A multiple case study. Animals, 11(1), 89.
Wells, D. L. (2019). The state of research on human–animal relations: Implications for human health. Anthrozoös, 32(2), 169-181.
[Artigo publicado na RHmagazine. Autor: Ana Junça Silva, Professora Auxiliar do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e Investigadora Integrada da Business Research Unit (ISCTE – IUL)]